Nós precisamos falar sobre o filme ''Nise, o coração da loucura''! Você já assistiu?
Resenha crítica - Nise, o coração da loucura
O filme estrelado por Gloria Pires, Nise: O Coração da Loucura, demonstra a luta da psiquiatra Nise em promover um tratamento digno aos clientes, forma como ela se refere aos pacientes, do Engenho de Dentro.
No primeiro momento, vivenciamos uma conferência entre os médicos presentes e a apresentação da recém-chegada psiquiatra, Nise, entre os demais. Alguns médicos apresentam seus métodos e como eles trazem resultados significativos no tratamento, como por exemplo, a psicocirurgia para os pacientes mais obsessivos, com alto grau de agressividade, onde é realizada uma trepanação bilateral no tálamo e no córtex, regiões inferiores. Neste momento é dito que um médico conseguiu reduzir o custo da cirurgia utilizando picador de gelo no procedimento, assim, Nise, visivelmente indignada com o procedimento, começa a arguir sobre a conduta e é dita que com o tempo ela se acostuma e é proferida a seguinte frase: ‘’graças a lobotomia, a psiquiatria é uma especialidade médica’’. Em seguida, um dos médicos palestrantes utiliza um paciente como exemplo para o seu experimento, a Eletroconvulsoterapia (ECT), que consiste em induzir a convulsão no paciente através de choque na região lateral da cabeça, momento em que Nise também critica o método e questiona como foi chegada à conclusão que o tratamento é eficaz.
Perplexa, Nise argumenta com o diretor da unidade que é incapaz de utilizar tais métodos tão agressivos, como dito por ela, e então é encaminhada para o setor de Terapia Ocupacional, que é dirigido por ‘’serventes’’, modo como os enfermeiros são chamados. Nesse setor somos apresentados a Lima, um enfermeiro que prontamente chama os clientes de malucos e, em primeiro momento, se monstra uma pessoa indiferente e não disposta a mudança e logo depois somos apresentados a Ivone, uma enfermeira que demonstra mais empatia e compaixão com o trabalho que realiza. A primeira atitude de Nise como responsável pelo setor de terapia ocupacional é de limpar e arrumar o setor, que se encontra submerso de bagunça e desorganização, porém, Lima diz que seu trabalho não é de limpeza e deixa a arrumação a cargo de Ivone e Nise, que prontamente arrumam o ambiente e tiram todas as ‘’tralhas’’ que estavam no local.
A primeira intervenção feita pela psiquiatra foi a conduta de deixar os clientes livres durante sua estadia na terapia ocupacional, deixando que se expressassem e fizessem o que quisessem. Também é dada a ordem de não se referirem a eles como pacientes, mas sim como clientes. A segunda intervenção acontece quando uma tentativa de futebol acontece no pátio, onde em primeiro momento todos se divertem, porém termina em confusão e briga entre os clientes. Nessa cena também somos apresentados a mais um funcionário do local que é interessado em artes.
É proposto a Nise que comece um trabalho de arte plásticas com os clientes e para a surpresa de todos os envolvidos, o trabalho evolui de maneira extraordinária, aonde os clientes ditos como crônicos e sem cura são capazes de desenvolver obras primordiais. Com a evolução positiva do trabalho realizado, ocorre a oportunidade de que Nise leve os clientes para um passeio ao bosque, onde os mesmos puderam ficar livres e se divertir da forma que quisessem, sendo uma prática bem-sucedida. Com prosseguimento do trabalho com artes, as obras realizadas no Engenho de Dentro são consideradas obras primordiais, o que leva Nise escrever uma carta para um mestre em psiquiatria, relatando seu progresso no tratamento dos indivíduos. Não muito depois, somos apresentados a Mario Pedrosa, um dos maiores críticos de arte do Brasil, que visita a exposição de artes realizada no próprio Engenho de Dentro, onde os trabalhos realizados pelos clientes estão em exposição. Neste momento, Mario fica maravilhado com o que vê e curioso pelo fato de como pessoas que nunca tiveram contato nem instrução do meio artísticos foram capazes de desenvolver criações tão belas e diz a Nise que não será a medicina que salvará o trabalho dela, mas sim, a arte e a opinião pública, tendo em vista a pressão sofrida por Nise pelos colegas que discordam e são de opiniões adversas a dela.
Ainda nesse cenário, Nise recepciona dois médicos que trabalham no local mas relutam em ver a exposição, momento que a psiquiatra diz que será breve e relata que no início do trabalho no ateliê de pintura a abstração era constante, mas o convívio no ambiente acolhedor e livre começaram a surgir formas geométricas, em especial o círculo, a forma perfeita e que as imagens são de uma língua esquecida por nós, imagens do inconsciente. A discussão encerra com Nise contra argumentando seu colega ao dizer que o instrumento
de trabalho dela é o pincel enquanto o dele é o picador de gelo. Ou seja, é proposto que um ambiente que seja agradável e acolhedor é capaz de trabalhar como um fator que impulsione positivamente o tratamento que esteja em andamento, independente da abordagem, seja através da arte ou não, contando que seja levado em consideração que se trata uma pessoa, indivíduo, alguém que existe e não somente uma cobaia para experimentos científicos.
Na cena seguinte vemos Nise recebendo uma carta do renomado Yung, onde o mesmo diz impressionado com o trabalho e resultados apresentados no Engenho de Dentro e argumenta que possui a suspeita que os clientes desenvolveram bem pois trabalham cercados de pessoas que não tem medo do inconsciente. Em seguida, Nise é pressionada para que os animais, cães, que habitam no centro terapêutico sejam postos para fora pois, em tese, estão causando sujeira e bagunça ao hospital, cena que é desmentida ao vermos todos os clientes aproveitando a chuva para banhar todos os cães, de forma livre, alegre e com sorriso no rosto.
Após a festa de São João realizada no pátio do setor de terapia ocupacional, festa que presenciamos um cliente sentindo ciúmes de sua suposta companheira e consequentemente tendo uma crise e sendo levado para um procedimento médico que Nise precisa intervir ao chamar a responsável legal para que a mesma assine e retire a permissão da lobotomia, ainda na festa vemos a estagiária informando ao cliente que foi designada a cuidar que estaria em viagem, então o mesmo some durante a festa e ambas, Nise e a estagiária, discutem sobre a conduta que foi tomada e por fim vemos a despedida de uns dos clientes que está indo para casa devido ao avanço demonstrado no tratamento proposto por Nise.
Na cena seguinte a da festa, os clientes encontram todos os cães terapeutas mortos, forma como Nise se referia aos animais que acompanhavam os clientes, justificando que eles eram essenciais para que fosse possível a demonstração de afeto, cuidado e de se importar com o outro. Vale ressaltar que ao propor a nomenclatura de cães terapeutas ao diretor da unidade, Nise é vista como louca e alguém que não sabe mais o que está fazendo. Os clientes não conseguem lidar com a perda dos cães, o que gera um momento de tristeza profunda, caos e desordem no pátio, até que um deles agride o enfermeiro, quase o matando.
Nise não vê outra alternativa a não ser de seguir o conselho de Pedrosa e levar o trabalho realizado para o público, assim, realizando a exposição ‘’Os artistas do Engenho de Dentro’’. Com a frase ‘’é preciso não se contentar com a superfície’’, Nise conduz a exposição onde todos os presentes observam atentamente as obras expostas. Pedrosa diz que uma das funções mais poderosas da arte é a revelação do inconsciente e que as imagens do inconsciente são simbólicas e que a psiquiatria tem o dever de decifra-las e então apresenta Nise como responsável pelo projeto. Por fim, uma pequena gravação da Nise é escolhida para encerrar o filme e a mesma relata brevemente como foi sua trajetória
.
Sendo assim, após uma análise crítica do filme, é possível perceber que métodos mais acolhedores, empáticos, humanistas possuem maior aceitação e resultados positivos do que métodos agressivos e que não tratam o indivíduo como sujeito, mas somente como uma cobaia. É preciso ouvir e identificar as necessidades individuais de cada um e ter a capacidade de trabalhar com o cenário de necessidades mistas, de se referir ao próximo da forma mais acolhedora o possível e não utilizar da hierarquia médica para imposições e descaso com os que buscam ajuda e que sim, com trabalho árduo e dedicação, é possível obter resultados inesperadamente positivos de uma abordagem mais humanista e livre e até os que não acreditavam no método, no caso o enfermeiro Lima, podem mudar de opinião e se tornarem grandes colaboradores para o sucesso das abordagem que procuram tratar o ser com dignidade.
‘’Nos pretendemos a recuperação de indivíduos considerados farrapos para uma vida socialmente digna e talvez mais rica’’
(SILVEIRA, Nise)
Precisamos falar sobre Nise!
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agosto 02, 2017
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